O Brasil alcançou a menor taxa oficial de assassinatos dos últimos 11 anos, conforme aponta o Atlas da Violência 2026. O estudo foi elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, com divulgação nesta terça-feira, dia 26.
Durante o ano de 2024, o país contabilizou 42.590 homicídios formais, o que representa 20,1 mortes a cada 100.000 habitantes. Ao comparar com o ano de 2023, que teve 45.747 casos, a taxa diminuiu 7,4% e as quantidades absolutas caíram 6,9%. Especialistas atribuem esse cenário a políticas de segurança baseadas em evidências, tréguas entre facções criminosas e ao envelhecimento populacional. No período de 10 anos, entre 2014 e 2024, a taxa nacional caiu 33,4%.
Apesar dos dados aparentemente positivos, os pesquisadores alertam para o crescimento das mortes violentas por causa indeterminada, uma categoria que frequentemente camufla assassinatos reais. Ao aplicar metodologia para calcular os homicídios ocultos, a estimativa real sobe para 49.673 mortes em 2024, gerando taxa de 23,4 por 100.000 habitantes. Nesse cenário corrigido, a redução em relação a 2023 foi de apenas 0,4%.
Os assassinatos ocultos saltaram de 3.755 para 7.083 casos, com alta de 88,6%. Com isso, passaram a representar 14,3% do total de crimes letais no país. A diferença entre as taxas oficiais e estimadas atingiu 3,3 pontos, indicando piora na capacidade do Estado de identificar a real intenção por trás de mortes violentas. Cidades como São Paulo e Belo Horizonte apresentam altíssimos índices de mortes ocultas, correspondendo a 84,7% e 65,2% dos totais estimados para essas capitais, respectivamente.
A distribuição da violência pelo território nacional é bastante desigual. Considerando apenas as taxas oficiais de 2024, o Amapá lidera o ranking de violência letal com 45,7 mortes por 100.000 habitantes, seguido por Bahia com 40,9 e Pernambuco com 37,3. Na outra extremidade, São Paulo registra o menor índice, com 6,6, acompanhado por Santa Catarina com 8,1 e Distrito Federal com 10,3. Quando a análise inclui os homicídios ocultos, o Amapá continua no topo com taxa estimada de 47,1, enquanto o Ceará sobe para a 2ª posição com 43,7. Apenas Maranhão e Ceará apresentaram aumentos relevantes em suas taxas oficiais na comparação anual, com altas de 7,6% e 5,2%. As maiores quedas oficiais ocorreram no Amapá com redução de 30%, Tocantins com 26,7% e Sergipe com 24,8%.
A violência letal também é extremamente concentrada. Apenas 99 cidades abrigam 50% de todos os homicídios do Brasil, representando cerca de 1,8% dos municípios. Por outro lado, 1.578 municípios não registraram nenhum assassinato estimado em 2024. As cidades de médio porte, que possuem entre 100.000 e 500.000 habitantes, concentram as maiores taxas médias de homicídios estimados, chegando a 24,1 casos por 100.000 pessoas. Entre os municípios com mais de 100.000 residentes, Maranguape no Ceará possui taxa alarmante de 87,2, seguido por Jequié na Bahia com 79,4 e Maracanaú também no Ceará com 74,1. Os menores índices nesse mesmo grupo populacional pertencem a Jaraguá do Sul em Santa Catarina com 2, Brusque em Santa Catarina com 2,6 e Santa Bárbara d’Oeste em São Paulo com 3,2.
Entre as capitais brasileiras, Salvador desponta com o cenário mais grave, apresentando taxa estimada de 52,7 mortes por 100.000 habitantes. Na sequência aparecem Maceió com 45,9 e Macapá com 45,6. Florianópolis é a capital mais segura, registrando taxa de 9,7, seguida por Brasília com 10,9 e Curitiba com 13,2. O Atlas da Violência extrai seus dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade. As discrepâncias entre os registros oficiais de segurança pública e as estimativas do estudo ocorrem devido a falhas técnicas no compartilhamento de dados entre as secretarias de saúde e as forças policiais, e não por intenção deliberada dos governos de mascarar a violência.